
2009 Difícil? Mas quem disse que faltaram oportunidades?
Não pretendemos escrever aqui um relatório usando termos “chavões” dos manuais de auto-ajuda. Indiscutívelmente a tão falada crise, nos trouxe muitas oportunidades. Não é na crise ou em mar revolto que olhamos para todos os lados, as vezes inquietos, outrora desesperados em busca de soluções para as tormentas? Não é em crise também que olhamos para dentro, avaliamos o caminho, retomamos a estratégia, valorizamos o conjunto “equipe” como parte do nosso jogo – patrimônio, buscando fortalecer a parceria, justamente em um momento adverso?
O ano de 2009 começou somente em maio. Até este período jogamos todas as nossas fichas na virada da macroeconomia, que embora macro, interfere diretamente na nossa micro relação da cultura, economia e sociedade. Falamos micro no jargão econômico do que representa a cultura brasileira, apenas 1% do PiB – Produto Interno Bruto de um país. O paradoxo desta questão é justamente, o que menos representa em termos brutos de investimento, de gastos e de estratégias corporativas que tem na crise o primeiro impacto - abandono de empresas na linha de projetos culturais, como patrocínios de manutenção, circulação e montagem. Revela-se nesse momento as empresas oportunistas, que utilizam dos mecanismos fiscais como forma de aumentar sua verba de marketing, dito cultural.
Em nenhum momento deixamos de confiar na continuidade e renovação do Cinearte Sarau. Seria difícil acreditar na Petrobras? Nas pessoas da Petrobras, também angustiadas por compreender o peso e o papel da empresa na cultura brasileira? Fácil seria desistir de tudo, ouvir a imprensa maliciosa, pensadores econômicos conjeturando sobre tudo e todos com alto grau de irresponsabilidade. Foi nosa opção ter acreditado no auge da crise, nos nossos valores, na qualidade da nossa equipe, que em momento algum nos ocorreu, o pensamento de abandoná-la, pelo contrário, somente a partir de um grupo forte, coeso e com profissionalismo poderíamos cumprir nossas metas ou até mesmo superá-las.
Começamos a traçar nosso cronograma ainda em águas turvas. Trouxemos o Grupo Amaranto e com ele oficinas e shows. Nas oficinas buscamos a harmonia com a Regap e seu projeto social, nos Shows a Petrobras recebeu créditos de apresentadora pelas contrapartidas das oficinas previstas dentro do Cinearte Sarau. Neste mesmo período levamos o Grupo Armatrux paras as escolas de Betim, Ibirité e Sarzedo. Na mesma semana a equipe do Cinearte Sarau estava na região do Vale do aço em parceria com o Instituto Indesi de Itabira, na qual apresentamos em 25 cidades. Nessa época também visitamos a cidade de Cordisburgo, dentro da semana de Museus e em parceria com a Associação Amigos Casa de Guimarães Rosa. Participamos da Feira do Livro de Poços de Caldas, levando o Grupo Miguilin, além de Santo Antônio do Amparo e Carmo do Cajuru, cidades parceiras do Circuito Campo das Vertentes.
A partir daí, em águas mais cristalinas mas não menos revoltas, assinamos nosso contrato, respiramos melhor, acertamos nossa bússola e mar adentro, queremos dizer, barro adentro, literalmente adentro da nossa van no Vale Jequitinhonha, nas cidades de Jordânia, Rio do Prado, Felisburgo, Rubim, Águas Formosas, Crisólida e Pavão. Acreditamos que tudo não passou de um teste. Esta não é uma região que nos dá visibilidade. Nos impressiona sempre que estamos lá, o quanto nosso país é desigual e como, através de nossos ideais, algo pode ser mudado. De agora em diante, o Jequitinhonha representará para nós, não metas a serem atingidas dentro de um contrato, mas sim contrapartidas dele. Ao recebermos um patrocínio com o Selo de uma empresa como a Petrobras, tendo a chancela de órgão público como o Ministério da Cultura, nos credencia para um papel de transformadores da realidade sócio-cultural brasileira.
Entendemos que o papel de um proponente –produtor está vinculado ao escopo do projeto a ser realizado. Mas somente poderemos avançar na profissionalização dos fazedores de cultura, se estes entederem que os recursos são finitos e com vontade, respeito e muita criatividade rompe-se a linha mecanicista e burocrática de agentes de cultura, arcaicos e políticos.
Voltando ao nosso contrato, no mês de julho cumpriríamos uma agenda de seis cidades dentro do Circuito das Águas no sul de Minas, até o surgimento do Circuito Trilha dos Inconfidentes, quando na ocasião incluímos mais 12 cidades a saber; Pouso Alegre, Cambuquira, São Lourenço, São Tomé das Letras, Carrancas e dois distritos, São Tiago, Cel Xavier, Tiradentes, Madre de Deus de Minas, Barroso, Ibituruna, Nazareno e Conceição da Barra de Minas. Inquestionávelmente, esta região nos deu grande visibilidade e certeza de volta. Surgiu nesse período a necessidade de avançarmos também para um plano de escolas. Criamos então o Cinearte – Educação, com a idéia de debatermos filmes polêmicos no ambiente escolar. Minas, Rio, Bahia e São Paulo têm grandes indícios de prostituição infantil, muito em função da falta de coragem de encarararmos esse fato como um grande mal da sociedade moderna. Acreditamos que para 2010 poderemos avançar muito nesse ponto.
Pausa no mês de agosto pra encarararmos setembro. A região da Bacia de Campos nos possibiltou avançar em número de cidades e também desenvolver o Cinearte –Educação em Quissamã dentro de um belo Cinema. Visitamos também; Barra de São João, Professor Souza, Casimiro, Carapebus, Búzios, Carapebus, Conceição de Macabu e Itaboraí. Em várias cidades houve mais de um dia para distritos e bairros. Por meio de um encontro de Culturas nesta região, várias cidades ficaram sabendo do projeto e setembro já não havia mais dias para atendê-las. “No meio do caminho” de volta, havia Lavras e Ribeirão Vermelho. Como é bem “coladin in belzonte”, lá paramos.
Outubro nos reservava outras ações importantes ligando o Rio à São Paulo num percurso de sete cidades. Seria fácil então ignorar os convites de uma região do Estado do Rio onde os Royalties do petróleo não chegam. Difícil foi prever o quão importante foi para nós. Ampliamos nosso circuito começando pela região serrana até fazer ligação com Angra dos Reis, início do circuito que era previsto. A cidade de Cordeiro teve um peso importante pela escolha de três dias do projeto, utilizando de uma programação vasta, com o Cinearte- Educação e dois dias de mostras de filmes e grupos atuantes da cidade com detalhe para filmes produzidos por cineastas da própria região. A cidade também divugou o projeto lá no alto da serra e o resultado do nosso último circuito podemos conferir agora; Cordeiro, Cantagalo, Macuco, Duas Barras, Guapimirim, Cachoeira de Macacu, Teresópolis – Persegueiro, Teresópolis – Bonsucesso, Angra, Parati, São Sebastião, Caraguatatuba, São Vicente, Cubatão, São José dos Campos e Cosmópolis. Algumas cidades também com agenda para dois dias, levando o Cinearte Sarau para centros e bairros.
Este último braço do projeto nos possibilitou aumentar a aproximação com cidades de grande interesse da nossa patrocinadora e parceira há quatro anos. Chegamos ao final do ano com um certo ar de júbilo. Olhando para um passado recente, 2006, 2007, 2008 e 2009 e tendo alcançado 215 municípios em 19 estados brasileiros, numa perspectiva de troca tão grande, para nós e para as pessoas que encontramos no caminho. Pessoas público, pessoas cidades ricas em patrimônio, pessoas grupos, pessoas artistas, pessoas gestores municipais de cultura, pessoas nossas que crescem a cada ano, pessoas do ministério da cultura e por fim, pessoas da Petrobras pela oportunidade e confiança.
Portanto, difícil é não ter o que sonhar. Tem mais crise por aí?
Arte Brasil Produção Cultural